Mostrando postagens com marcador homenagem.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador homenagem.. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Delegado Claudinê Pascoetto

Homenagem
Fonte da imagem: Memórias da Polícia Civil de São Paulo
Carlos Alberto Marchi de Queiroz*
Claudinê Pascoetto, delegado ímpar da Polícia Civil, da segunda metade do século 20, faleceu em Campinas, no dia 15 de julho de 2017. Estava com 74 anos.
No círculo exclusivo das autoridades e agentes que combatem o crime e a contravenção, doutor Pascoetto foi figura reverenciada. Identicamente, como professor de Direito Constitucional.  Aconselhava pares, comandados e alunos a respeitar os Direitos Humanos.
Campineiro da Vila Industrial, nascido em 9 de outubro de 1942, o libriano Claudinê era filho de humilde ferroviário da Companhia Mogiana. Sua mãe era de prendas domésticas. Após concluir o primário, no bairro, estudou no Colégio Estadual Culto à Ciência, onde destacou-se em atividades literárias  de Português e de Francês. Ingressou na Faculdade de Direito da então UCC, graduando-se, com distinção, em 1967. Pagou o curso trabalhando como bancário. Advogou alguns meses, antes de prestar concurso.
Como autoridade policial, pontificou na defesa do Estado Democrático de Direito, mesmo  policiando durante os Anos de Chumbo. Apesar de não deixar obras publicadas, Pascoetto elaborou preciosos relatórios em inquéritos instaurados para apurar infrações penais de ordem político-social, peças preservadas no Arquivo Oficial do Estado, na Capital.
Iniciou a carreira na região de São Carlos, em 1968. Em razão de seu saber jurídico, foi convocado para atuar no Dops. Foi destacado para atuar na CEI - Comissão Especial de Investigações- junto ao comando da  4ª Zona Aérea do Ministério da Aeronáutica.  Destacou-se pelo respeito aos Direitos Humanos assessorando oficiais da FAB em IPMs  instaurados contra opositores do regime militar de 1964.
O Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, não alterou a personalidade da elegantíssima autoridade. Continuou a tratar amigos e opositores com respeito. Admirado pelas mulheres, causava uma pontinha de inveja nos homens, que o apelidaram de Príncipe. Mantinha ótimo relacionamento com a imprensa, especialmente com Celso Afonso, Gonçalo Gonçalves e Antonio Erbolato.
Em razão de sua finíssima educação, tornou-se o primeiro titular da delegacia de Viracopos, onde grangeou amigos, permanecendo no comando por mais de uma década. Transferido para o Aeroporto de Congonhas, tornou-se, logo após, o primeiro titular da Delegacia do Turismo, na Avenida São Luiz, em São Paulo. Era fluentíssimo em inglês, francês e italiano.
Por ocasião da chegada ao Brasil de Américo Thomaz e Marcello Caetano, presidente e primeiro ministro de Portugal, depostos pela Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974,  Pascoetto foi a primeira autoridade a ingressar na aeronave da TAP, em Viracopos, assegurando-lhes o direito de asilo concedido pelo Brasil. Testemunhei, a poucos metros, o momento histórico.
 Foi excelente professor de Direito Constitucional . Tinha grande facilidade de expressar-se por palavras e por escrito. Haroldo Ferreira, antigo diretor da Academia de Polícia, onde Pascoetto lecionou Direito Constitucional, desde 1991, para as carreiras policiais, considerava-o um excelente professor. “Ele era um docente que cativava os alunos, pelo profissionalismo e pela clareza.”
Entre centenas de casos importantes solucionados, destacou-se pela prisão do mais poderoso bicheiro do Brasil,  Castor de Andrade, no Salão do  Automóvel, no Parque do Anhembi, no dia 26 de outubro de 1994. O rei da contravenção, de peruca e bigode, negros, com mandado de prisão em aberto, ousou sair do Rio de Janeiro viajando para São Paulo.  Acabou algemado por Pascoetto.
 Dedicou-se, por mais de 20 anos, ao ensino do Direito Constitucional na Faculdade de Direito da PUC-Campinas. Tinha mestrado pela USP. Na época, foi orientado pelo professor Manoel Gonçalves Ferreira Filho, ex- vice governador, de quem  tornou-se amigo pessoal.
O senador José Serra, em seu livro Cinquenta anos esta noite, Record, 1ª edição, 2014, página 248, traça breve perfil de Claudinê, que o interrogou, cavalheirescamente, por mais de oito horas, nas dependências do Aeroporto de Viracopos, quando de sua volta do exílio, em 18 de maio de 1977.
Doutor Pascoetto encerrou sua brilhante carreira como diretor do Deinter-1, de São José dos Campos, em 2012, integrando o Conselho da Polícia Civil. Antes, foi delegado secional de polícia da Zona Norte, em São Paulo, e diretor da Divisão de Material. Modernizou unidades policiais, armamentos, comunicações e veículos.  Estudou combate ao narcotráfico na Polícia Nacional do Japão. Sempre foi promovido por merecimento.
Foi casado com a delegada de polícia Delma Pascoetto. Deixou um casal de filhos, Luiz Gustavo e Cláudia Helena, ambos delegados. Tocava saxofone. Nos últimos tempos atuava como advogado voluntário da Feac, de Campinas. Convenceu-me a ser delegado. Estava rascunhando um livro de memórias quando foi surpreendido pelas Parcas.
*Carlos Alberto Marchi de Queiroz é professor de Direito e membro da Academia Campinense de Letras.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

DELEGADO JOSÉ LEONARDO PEDROSO

HOMENAGEM
Setor de Jogos e Costumes da Delegacia Seccional de Campinas, na década de 70.
Delegados de Polícia José Leonardo Pedroso (sentado), Antônio Carlos de Toledo Neto (à esquerda) e Humberto Barros Franco Filho.
Fonte: Memórias da Polícia Civil de São Paulo

Carlos Alberto Marchi de Queiroz

Soube do passamento do doutor José Leonardo Pedroso pela coluna Falecimentos do Correio Popular, de 12/5, A10. Laconicamente, dizia que morrera em 9 de maio de 2017, que nascera em Tambaú, SP, em 25 de janeiro de 1938 - dia da celebração da conversão de São Paulo - deixando irmãos, filha e duas netas.
 Doutor Pedroso foi uma das autoridades policiais mais íntegras e dinâmicas da Polícia Civil de Campinas. Convivi com ele, como professor da Academia de Polícia e como operacional , em face da  organização, que nos atribuiu  semelhantes missões.
 Atarracado, baixo, forte, explosivo, fumante inveterado, voz tonitruante, personalidade marcante, enxergava através de grossos óculos. Lembrava o político Mário Covas. Sempre me telefonava de Florianópolis, onde gozava do ócio com dignidade. Tratava-me, fraternalmente, de Carlos Alberto.
Num dos telefonemas, no ano retrasado, ainda morando aqui, contou-me delicioso episódio, acontecido dentro de um supermercado perto do Centro de Convivência, no Cambuí. Relatou que, certa manhã, fazendo fila para pagar as compras, percebeu que um jovem, marombado, ofendia, com palavras de baixo calão, a operadora de caixa que, chorando, não conseguia livrar-se do turbulento.
 Aproximou-se, perguntando com voz grave: “O que está acontecendo?”. O folgazão, respondeu: “Cale a boca, velho!!!”. Pedrosão não vacilou. Esfregando a carteira funcional, de cor vermelha, que conservara, como de direito, após a aposentadoria, na cara do malvivente, retrucou, com voz de trovão: “Velho não. Delegado de polícia!!!”
 Agarrando o esbugalhado desordeiro pela gola, convocou os seguranças. Identificando-se, determinou: “Detenham este indivíduo. Chamem a PM!” O brutamontes, pálido, molhou-se, pedindo o relaxamento da custódia.
 Pedroso ordenou: “Peça desculpas à moça, moleque”. Blefou: “Senão, vou levá-lo ao 13º DP  do doutor Rocha, para autuá-lo por desacato”. Arrematou, energicamente: “Só irei relaxar a prisão se pedir desculpas à mocinha.”
Dirigindo-se, carinhosamente, à vítima, perguntou: “Filha, você aceita as desculpas dele?” Diante da anuência da garota, ordenou: “Então, vagabundo, peça desculpas, já!” O indigitado, apavorado, obedeceu. Liberado, desapareceu antes da chegada dos milicianos, logo dispensados pelo delegado aposentado. Contou-me isso, dando gostosas gargalhadas.
José Leonardo Pedroso, cremado em Florianópolis, foi um dos mais destemidos delegados de Campinas. Filho de humilde oleiro em Tambaú, órfão de mãe, foi adotado pelo delegado Ulhoa Canto, em 1944, quando o diretor da 3ª Delegacia Auxiliar, visitando, em inspeção, a cidade do padre Donizetti, encantou-se com aquele menino de 6 anos, que sofria de paralisia infantil.
Levado para São Paulo, o petiz, operado e curado, frequentou colégios. Formando-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, em primeiro lugar, foi colocado pelo pai adotivo na Polícia Civil como delegado substituto. Efetivado em 1968, após prestar concurso de provas e títulos, iniciou a carreira em Analândia. Transferido para Piracicaba, veio depois para Campinas, como titular da Delegacia Especializada em Acidentes de Trânsito - Deat.
No início de 1970, chefiou a Delegacia de Jogos, Costumes e Entorpecentes. Nessa ocasião, segundo Antonio Lázaro Constâncio, presidiu o primeiro  flagrante de LSD contra uma socialite  que portava a droga.  Depois, inaugurou o 2º DP, no São Bernardo, como titular. Prendeu o famigerado ladrão Pé Sujo e Luiz Carlos do Valle, romântico assaltante de bancos. Acabou com a prostituição no centro da cidade.
Nessa década, presidiu inquérito contra ex-prefeito, acusado de apropriação dos trilhos dos bondes, desativados anos antes, localizados em Pedregulho, na fazenda do pai, arquivado em juízo. Foi assistente do delegado Amândio Augusto Malheiros Lopes, na Delegacia Seccional e na Delegacia Regional de Polícia, por seus excepcionais dotes intelectuais, morais e jurídicos.
No último ano do governo Montoro, em 1986, e nos sucessivos, de Orestes Quércia, que o detestava, tornou-se o segundo homem na hierarquia da Polícia Civil, trabalhando como chefe de gabinete do delegado-geral Amândio. Depois, foi delegado regional de Piracicaba por seis anos. Perdeu um filho, investigador de polícia, morto no cumprimento do dever. Sofreu muito com a tragédia. Serviu, de novo, ao DGP Jorge Miguel. Tratava de filho os mais jovens  Encerrou a carreira como diretor da Academia de Polícia de Campinas, em 2008, defendendo os Direitos Humanos.
Antes de falecer, telefonou-me pedindo que advogasse para sua esposa, a fim de receber seu pecúlio. Confessou-me que Deus não o amava mais e que dele se esquecera. Deus levou-o há um mês. Pedroso combateu o bom combate, completou a carreira e guardou a fé, a exemplo do apóstolo Paulo, em sua Segunda Carta a Timóteo, 2 Tm 4:7.

Carlos Alberto Marchi de Queiroz é professor de Direito e membro da Academia Campinense de Letras.